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21/03/2013

Em Comum



 Assim que atravessei a rua, dei de cara com Tomás. Voltava da minha corrida noturna, e ele, do emprego de soldador no centro da cidade. Um silêncio constrangedor se fez, mas não demorou muito para ser quebrado por Tomás.

- Oi!
- Oi Tomás!

 O silêncio voltara.

- Então... Minha irmã vai inaugurar uma cafeteria amanhã, se você quiser ir...
- Eu não sei... - interrompi.
- Eu ia ficar muito feliz.
- É... Tá... Pode ser.
- Às cinco amanhã. pode ser?
- Combinado.

 No dia seguinte saí mais cedo da livraria. Tomás passaria às cinco para me buscar, eu precisava estar pronta. 
 Não muito depois do horário combinado, Tomás tocara a campanhia. Antes que eu pudesse dizer algo, ele se antecipou:

- Você está linda!

 Suspirei e respondi:

- Obrigada!

 A caminho do café, Tomás e eu conversamos naturalmente, e algumas gargalhadas até ocuparam o lugar daquele silêncio constrangedor.
 Já na mesa do canto, perto da janela, saboreávamos nossos capuccinos.

- Eu não sabia que você tinha uma irmã.
- Pois é. A Tereza morava com meus pais na Holanda.
- Holanda? Uau!
- Sim. Mas assim como eu, ela sempre quis voltar para o Brasil. Depois que eu voltei não demorou muito para que ela fizesse o mesmo.
- "Peraí", você morava na Holanda???

 Ele riu.

- É! Minha família se mudou para lá quando eu tinha 7 anos, e a Tereza 15.
- E você gostava de morar lá?
- Sim. Foram 16 longos e maravilhosos anos! Mas, nada como a terra da garoa, não é? - Sorri. - E de alguma forma sentia que precisava voltar ao Brasil.  Tinha algo que me chamava... Acho que era você.

 Corei!

- Eu não sabia que você tinha vindo da Holanda. Você não tem sotaque algum. - Soltei, num tentativa frustrada de mudar o rumo da conversa.
- Tem muita coisa sobre mim que você não sabe.

 Corei! Novamente. Droga!

- Vai, agora é a sua vez!
- Minha vez?
- É! Me conta alguma coisa sobre você. Algo surpreendente!
- Surpreendente? Hum... Que difícil! Não sei...  Odeio queijo. Coleciono etiquetas... Ah! Nunca assisti Harry Potter! É... tenho todos os discos do Nando Reis, tenho um pôs...
- Você? - perguntou Tomás, surpreso, em meio a risos.
- Eu o quê?
- Você é fã do Nando Reis?
- Desde que eu me entendo por gente!!!
- Não dá para acreditar! - disse Tomás, ainda sorrindo.
- Por que? Não tenho cara de que sou fã dele?
- Não. Quero dizer... Não é isso. É que eu também tenho todos os discos dele!
- Verdade? Nossa! Você é o primeiro homem que eu conheço, que não me critica pelo meu gosto musical.
- Criticar? Claro que não! Você é a primeira pessoa que eu conheço que se diz fã MESMO dele... A maioria só ouve e... gosta! - dissemos isso juntos, e... gargalhamos também!

 Passamos as próximas duas horas "discutindo" quem era fã a mais tempo, eu comentando os shows inesquecíveis que tive a chance de ir, e ele se lamentando por nunca ter ido a nenhum e ter se contentado apenas com os DVD's que chegavam na Holanda. 
 Tínhamos algo em comum (além do endereço), e confesso que tinha gostado de descobrir isso.
 Voltando para casa, nos vimos cantando "Por onde andei" feito crianças, na calçada, esquecendo que estávamos no meio da rua e não em um vídeoclipe. Quase no fim do refrão, Tomás me puxou pela mão e me parou bem em frente ao chafariz. 


 No céu, a lua cintilava sobre nós. Nosso olhar se uniu por alguns segundos, e então... nos beijamos!

 Naquela noite, chegando em casa, me dei conta de que Tomás já não era apenas o carinha do andar de baixo. Ele era bem mais que isso.  Ele era o cara por quem eu estava completamente apaixonada!



               "Por onde andei? Enquanto você me procurava..."





21/02/2013

O cara do andar de baixo - parte 2



 Zapeei a TV mais de sete vezes. Nada de interessante. Olhei para a estante, buscando um refúgio, mas já havia lido todos os livros. Fui até a cozinha e abri a geladeira - mais para pensar do que para comer - mas ela estava totalmente vazia, assim como eu me sentia. Não tinha nada para fazer, para ler ou comer. Pensei em ligar para a minha terapeuta, mas era tarde demais para um sessão de análise. Era sábado à noite! Precisa sair (para qualquer lugar), fugir daquele tédio que rondava meu fim de semana.
 Vesti-me de alguém que não era eu e saí. Nunca gostei de balada (nem de música eletrônica, nem de pessoas bêbadas, nem de nada parecido com isso), mas quando dei por mim, era lá que eu estava, para viver uma noite que nunca havia vivido.
 Pela primeira vez pus uma gota de álcool na boca. Era algo que não fazia ideia de como se chamava, mas de fato, era horrível. Mesmo assim, depois daquele gole vieram mais três garrafas. Também fumei pela primeira vez. Não lembro de ter feito isso, mas fiz. O gosto do cigarro ainda está em minha boca.
 Quando acordei, minha cabeça latejava! Mais por arrependimento do que pela própria ressaca em si. Tudo girava ao meu redor. Não sabia como havia chegado em casa. Na verdade... Não havia chegado. Eu não estava em meu quarto. Aquele não era o meu apartamento. E eu não tinha ideia de onde estava.


 Levantei e fui até a janela. A paisagem era quase a mesma que eu podia ver pela janela do meu quarto. A farmácia do outro lado da rua, a mercearia da esquina, mais à esquerda, a escola em que eu havia estudado a vida inteira, e bem ao fundo, o letreiro da livraria em que eu trabalhava. Definitivamente estava em meu prédio.

- Acordou?

 Ao ouvir aquela voz familiar, no mesmo instante me virei.

- Tomás?!?!
- Bom dia Inês! Ou melhor... - corrigiu-se ao olhar o relógio em cima do criado mudo. - Boa tarde!
- Que horas são???
- Quase três e meia.
- Minha nossa! Estou atrasda para o trabalho! - falei, dando um pulo da cama.
- Hoje é domingo.

 Voltei a sentar para situar-me.

- Tomas, como-eu-vim-para-na-sua-cama?
- Você não lembra de nada?
- Lembrar de quê???

 Tomás riu.

- Fica tranquila, não aconteceu nada. Eu dormi na sala.
- Ufa!
- Trouxe isso para você. Deve está morrendo de fome.

 Ainda não tinha reparado, mas Tomás havia deixado em cima da cama uma bandeja com café, panquecas, geleia e uma tijela de salada de frutas.

- Como eu vim parar na sua casa? - perguntei, enquanto beliscava a panqueca.
- Hoje cedo quando saía para correr, te encontrei sentada na portaria, totalmente desnorteada. Perguntei se você queria que eu te acompanhasse até o seu apartamento, mas você estava tão louca que não conseguiu responder. Tentei achar suas chaves, mas elas não estavam na sua bolsa.

 Na mesma hora corri até minha bolsa e a revirei em cima da cama.

- Droga! Meu celular também não está aqui. Não acredito que fui assaltada!
- Quer tomar um banho?
- Você me empresta uma blusa?

 Bagunçando o meu cabelo, ele respondeu:

- É só pegar.

 Ao sair do banheiro, Tomás estava na sala.

- Se sente melhor?
- Acho que sim. Vou descer e ver se arranjo algum chaveiro.

 Tomás olhou para baixo, tentando esconder sua expressão. Sabia que havia sido descoberto.

- Ei! Você também pensou nisso não pensou? É claro que pensou!

 Tomás se levantou do sofá e veio até mim. Acariciando o meu cabelo, respondeu:

- Foi a primeira coisa que pensei em fazer.
- Cretino! - exclamei, me afastando.

 Ele gargalhou.

- É assim que você me agradece por toda a hospedagem?
- Eu não sei onde você vê tanta graça.
- Inês... - ele se aproximou ainda mais. - Lembra quando você disse que eu te observava há algum tempo?
- E você negou.
- Você estava certa.
- Estava? Mas...
- Você não deve lembrar. Com certeza não lembra... No dia em que eu vim fechar a compra do apartamento esbarrei em você na portaria. Desde então não parei de pensar em você. O antigo proprietário foi quem me disse que você morava no apartamento de cima. E... Bom, naquele dia em que interditaram os elevadores foi a oportunidade perfeita para eu me aproximar de você.
- Eu... - vi em seu olhos expectativa. - Eu acho melhor eu ir, Tomás!

 Abri a porta e fui em direção ao elevador.

- Espera Inês! - olhei para ele. - Tem certeza que está bem?
- Eu vou ficar... Mas obrigada por tudo, viu?
- Não precisa agradecer...

 O elevador chegou. Tomás abriu a porta e eu entrei.

- Tchau Tomás.
- Tchau Inês.

 E a porta se fechou.



07/02/2013

O cara do andar de baixo - parte 1




 Assim que entrei no prédio notei uma aglomeração na portaria. Os elevadores estavam interditados! Enquanto alguns externalizavam a raiva com palavras de baixo calão, apenas soltei um:

- Droga!

 Um homem que chegava à portaria naquele momento pronunciou-se.

- Quer ajuda para subir?
- Não preci... - antes mesmo que eu concluísse minha resposta, o tal carinha me levantou em seus braços. - Você está louco? Eu já disse que não precisa! Eu subo sozinha.
- Com o pé imobilizado?
- Pode deixar que eu me viro. Agora me coloca no chão!
- Você não vai conseguir subir sozinha. - disse em tom sarcástico.
- Como tem tanta certeza? E se eu morar no 1º andar?
- Só que você mora no 4º.
- Como você sabe? - comecei a desconfiar do estranho. - "Peraí!" Aliás, quem é você? Eu nunca te vi no prédio.
- Meu nome é Tomás. Sou novo no prédio, me mudei há 1 mês. Moro no 3º andar, bem embaixo de você.
- Como sabe que eu moro no apartamento de cima? - indaguei.
- Todo dia, por volta das duas e meia da manhã, começa um barulho insuportável de móveis sendo arrastados, chão sendo varrido. É bem a sua cara esse tipo de anormalidade.
- Ei! Que intimidade é essa que você pensa existir entre nós, para me chamar de anormal?
- Vamos combinar que faxinar a casa às duas e meia da manhã é loucura!
- Não é loucura! É terapia.
- Então, Sra. Terapia, podemos subir?
- Não estou segurando você! Muito pelo contrário, não é?

 Assim que chegamos à porta do 407 ele me pôs de volta no chão.

- Não vai nem me agradecer?
- Por você me carregar a força por quatro andares? Não mesmo.
- Você não cansa de ser grossa? - perguntou, parecendo gostar da minha grosseria.
- E você não cansa de ser intrometido?
- Acho que eu vou descendo...
- Até que enfim você se tocou.
- Até mais Miss Simpatia! - acenou.
- Vai tarde, Sr. Inconveniência.

 Ainda abria a porta, quando Tomás voltou.

- Ah, não perguntei seu nome!
- Pensei que soubesse. Descobriu tanta coisa sobre mim e não sabe o meu nome? Acho que você falhou Sherlock Holmes. - ironizei.
- Você realmente acha que eu estou te observando há tempos?
- É o que parece.

 Ele riu e deu as costas.
 Antes que ele descesse as escadas, gritei:

- Tomás! - ele se virou. - Meu nome é Inês.

 Ele sorriu balançando a cabeça, e desceu.


 

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